O público “coletor” e a nova forma de consumir informação

Talvez as novas gerações nem saibam do que se trata, mas houve um tempo em que o jornaleiro era responsável por entregar de porta em porta as notícias do dia. Era uma forma de consumir em que a informação vinha até o leitor e aquelas páginas de jornal eram suficiente para satisfazer a ânsia matinal por novidades.

Depois disso a repercussão ficava por conta da TV ou até do rádio e pronto. Novas informações seriam entregues novamente na manhã seguinte, na porta de sua casa no caso dos assinantes de jornal.

De acordo com o artigo The Death of te Paperboy, a mudança para os meios digitais aconteceu lenta o suficiente para que não percebêssemos a ausência dos jornais entregues na porta de casa, mas substituímos o jornal matinal pela tela do smartphone com muita facilidade.

Hoje, ao longo do dia, você abre seu e-mail e verifica o Twitter ou o Instagram ocasionalmente. Se você faz parte da grande parcela que consome notícias pelo smartphone, pode se deparar com um artigo interessante no Facebook, que você lerá. No fim do dia você vai para casa, assiste algo no Netflix e depois vai para a cama (não sem antes dar mais uma olhada no que aconteceu nas redes sociais).

Mas e no lado do Publisher?

O desenvolvimento tecnológico dos meios afetou também os editores de conteúdo e a forma de criar. Todo um modelo de negócios foi virado de ponta cabeça (e muitos ainda parecem não ter notado). A verdade inconveniente é que a indústria editorial ainda conta com a glória do tempo em que “empurrava” a notícia para os leitores, que eram dependentes deles para obtê-las.

Mas hoje o jogo virou: o público agora consome seu próprio conteúdo online e tem literalmente o mundo todo ao alcance dos dedos. Infelizmente muitos meios ainda pensam na lealdade do consumidor e priorizam planos de negócio que visam ser o único local de coleta das informações. Com todo o conteúdo disponível por aí, por que alguém faria questão de ser assinante para obter notícias e entretenimento em apenas um lugar?

Para ser breve, a resposta é: a grande maioria não faz questão e os portais precisam adotar outras estratégias para sobreviver.

A diferença entre receber e coletar

A forma de consumir mudou de um modelo onde se recebe a informação para um onde ela é coletada. Na era da notícia entregue, quando não havia escolha mas também não era necessário procurar, os editores alimentavam os usuários com o que bem entendessem.

Agora as coisas mudaram. O que chega até nós vem sob demanda e ainda temos a opção de consumir aquilo ou procurar outra fonte. Temos ao nosso alcance as histórias que queremos, as experiências que gostamos e as músicas que desejamos. E isso muda a perspectiva do outro lado.

Você não pode ir até uma banca de jornal e pedir apenas a parte de esportes ou política do jornal, por exemplo. Por outro lado, pode visitar quantos sites especializados quiser em busca da mesma notícia.

Para ficar fácil entender, aqui vai uma analogia: somos crianças no supermercado e as informações são os produtos da prateleira. As crianças muitas vezes são bem específicas nas suas vontades. Elas dizem o que querem e apontam para o produto desejado. Os pais podem entregar algo parecido, podem dizer o que é melhor para a criança, mas vão ter pela frente uma vasta gama de emoções humanas negativas afloradas (e todo mundo em volta vai ouvir).

O princípio da atração da Internet funciona exatamente da mesma maneira. As pessoas agora esperam ver o que pedem quando pedem.

Novos modelos de monetizar o conteúdo

Antes de mais nada, vamos separar as coisas: assinatura e “paywall” não são a mesma coisa.

A assinatura atesta minha vontade de ser fiel àquele meio de me informar por um preço fixo com o que eu preferir. Eu realizo um pagamento periódico e posso acessar o conteúdo que quiser, onde e quando for mais conveniente.

Uma “paywall”, por outro lado, é uma das maneiras mais hostis de punir alguém que realmente se qualifica como cliente. Ela impede o usuário que já consumiu determinado número de notícias de continuar navegando pelos conteúdos sem tornar-se assinante.

Enquanto os leitores esporádicos do portal podem ler uma, duas ou até três notícias por dia, o leitor fiel, que prefere buscar todas as informações no site, encara uma barreira que força-o a aceitar um plano de assinatura para ter acesso. É uma chance perdida de estabelecer valor e nutrir valor, intensificando um relacionamento com o usuário e, no final, recrutar novos assinantes.

Por que não pegar emprestado o método freemium testado e aprovado do Spotify, por exemplo, que oferece um plano de assinaturas, mas possui o plano gratuito com anúncios. Se o usuário não quer ser interrompido por propagandas, que compense a receita da mesma. É um método simples, testado e que não gera a mesma frustração de um bloqueio total.

Foco nas escolhas

Então, o que os editores e a indústria como um todo precisam fazer? Não há opção a não ser dar a liberdade de escolher os consumidores, porque eles esperam isso.

É hora de colocar a conveniência no centro e permitir acesso verdadeiramente sem atrito ao conteúdo. As assinaturas ainda parecem ser o principal modelo, mas, como vimos, isso não é realmente uma opção.

A solução é oferecer planos diferentes para usuários diferentes. Quem ocasionalmente navega em um site não vai virar um assinante, mas pode estar inclinado a comprar alguns artigos se não precisar de muito esforço. Usuários mais frequentes podem estar inclinados a comprar um período de acesso ilimitado se o preço for tão atrativo quanto o conteúdo. E finalmente os usuários mais fiéis ainda podem optam por assinaturas.

E por que não criar um método pós-pago? Calcule o seu consumo de conteúdo e pague depois. Além disso, não seria melhor ainda se você pudesse simplesmente olhar para o seu telefone ou colocar o polegar em um sensor para pagar sua conta quando atingisse determinado valor?

Talvez as soluções não estejam muito longe. É preciso adaptar modelos já existentes para as formas tradicionais de consumir. É hora de criar modelos centrados no usuário que permitem que os leitores consumam conteúdo da forma que quiserem.

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